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É POSSÍVEL MORRER DE AMOR?

É POSSÍVEL MORRER DE AMOR?

Neste mês do setembro amarelo vejo o tema com mais tristeza…fico nostálgica, reflexiva…mas é de um lugar indizível. Vou tentar em muitas linhas expressar a quase morte que o amor move em mim, um pouco do meu lado dramática e até trágico que vejo o amor. Eu já quis morrer de amor.
Já acordei numa cama vazia, com a sensação que a separação não passava de um sonho ruim… e ali andando pela casa procurando por ele ainda sonolenta…despertava para a realidade que o fim era real. Tenho memória uma sensação de não poder respirar…era quase ousadia respirar só naquele quarto vazio.

Esta sensação até hoje é de longe a mais próxima que senti da morte.
O divórcio para os que amam vem carregado de um peso maior, pois os emotivos não costumam ser práticos em circunstâncias de dor. Mas o divórcio em si nunca é algo suportável quando ainda há amor . Envolve dor, perda…aborto de sonhos gerados de lugares muito sagrados da alma: o território dos amantes, dos muitos amanhãs que não podem mais ser visto juntos.
Creio que quis morrer de amor mais vezes do que eu deveria. Recentemente conversando com uma amiga sobre isso na minha formação de Pathwork, ela disse algo que me pareceu tão absurdo: “Ana se eu tivesse vivido metade das suas decepções amorosas, eu provavelmente nunca mais sairia nem do quarto”…

E eu estou aqui…
blogando a dor de amor. Faço isso pela profunda cumplicidade ao suicida e ao meu lado também suicida que vê no “morrer de amor” a única saída para aquela falta de ar, num quarto silencioso. Amor é barulho, movimento, vida!
E por isso mesmo eu vou escrever longamente hoje.
Talvez eu escreva aqui só pra mim. Ou para partes de mim que ainda não entendo…
Escrevo só para dizer que o luto é algo transformador é muito libertador. É um misto de emoções semelhantes ao que se vive ao lado de um paciente terminal: apesar da dor e do luto da morte tão perto… vem junto uma sensação de alívio. Esta dualidade é sem dúvida nossa maior força. É preciso olhar para o amor fenecido com dor e alívio…Se ali encontramos o fim, ou nos foi entregue mesmo contra a vontade, há em nós uma parte que também adoeceu…e precisava partir.

Apesar de trágico…
Vou contar um pouco desta minha jornada…das imagens de amor e do quanto acreditei que meus maiores amores eram impossíveis , inalcançáveis. Presa na imagem do amor.
Também aprendi entre minhas tragédias afetivas a honrar e ter uma imensa gratidão. Aprendi a ter clareza dos amores reais que vivenciei com homens que de fato me honraram e estiveram comigo.
Aprendi a ver no Caio e no Luciano, a força que o casamento representa na vida, na cumplicidade do amor real…dia a dia…construído na árdua rotina que tanto nos põe à prova.
Eu entendi que foram estes dois homens que pude chamar de meus, criar alianças, ter filhos…me sentir pertencente à alguém.
Meus dois casamentos construíram e desconstruiram em mim o amor real.
Mas vamos do começo?
Eu já quis morrer de amor!

Minha primeira vez, acreditando que morreria de amor, foi ao ser traída pelo primeiro namoradinho de escola, bem na semana de formatura…ali eu senti o gostinho sofrido da decepção…posso dizer que foi o primeiro golpe ceifado na minha pureza e era nova demais para elaborar, por anos fazendo terapia eu ainda carreguei aquela marca. Ali aprendi que por mais difícil que pareça, falar a verdade e por tudo a perder é sempre melhor do que trair ou ser traída. E posso dizer aos 35 anos que sou fiel por esta experiência tão precoce. E consegui não morrer de amor.

Depois com maior intensidade veio a dor do Primeiro Amor, ao som de Bachiannas número 5 do Villa Lobos. E desta vez a vontade de morrer de amor saiu do controle e precisei de ajuda da família, dos amigos…dei sinais claros de depressão, começou atacando meu apetite de tal forma que perdi 11kg em uma semana, deixei meus pais e amigos malucos. Eu acreditava que nunca mais sairia da cama, nunca mais sararia aquela ferida…Ali eu achei que seria o lugar mais fundo que eu poderia conhecer da dor de amor…Tive pensamentos sombrios demais para os meus poucos 18 anos.

Então a luz se fez mais uma vez…e mesmo sendo um longo inverno…Me recuperei…o sonho chegou desta vez ao som de Ben Harper e eu me casei.
Posso dizer que vivi o conto de fada que ouvia na infância. E era algo Resende curativo para minha Alma feminina e crente no mundo rosa.
Ter recebido o amor deste lugar foi uma das experiências mais belas que eu pude viver…nosso começo curou muitas feridas que minha alma já não almeja alcançar. Mas também me trouxe muita auto estima. Lembro-me como se fosse hoje: “Eu vou ser o que você precisar que eu seja”. Ali eu disse sim, ali eu me casei pela primeira vez.
Hoje vendo a imaturidade dos 20 anos…esta promessa carrega mais loucura e leveza e também menos dor.
Compreendi o quão inviável seria cumprir algo que exige do outro deixar de ser quem é para satisfazer as expectativas do outro…soa até cruel viver assim. Mas foi juntos que descobrimos isso tudo pela primeira vez. Juntos começamos a buscar o amor real, onde posso ser amado sem máscaras e sem expectativas…amar por amar. E claro não havia lugar para permanecermos juntos. Eram imagens de amor.
No meu juvenil casamento como em Cantares de Salomão tatuamos nossos nomes, na esperança de que tornando o amor cravado na pele, seria eterno, teria a força que só os anos constroem. Anos que nunca tivemos.
Como se fosse hoje eu vejo o Gabet vermelho onde sonhamos os mais belos sonhos. E choramos o aborto também. E assim eu morri de amor um pouco mais e me divorciei pela primeira vez aos 22 anos.

Como queimaduras de terceiro grau…num estado de carne viva, num voo para Paris ao som de Ameli Polan foi que conheci o amor mais sagrado…talvez até o amor mais intenso da minha vida…como um sol de quinta grandeza…por anos e anos…perdi e me encontrei dele…
Mas eu não tinha forças de deixar o amor entrar…E nos perdemos antes mesmo de desfazer as malas.
Ali com a bagagem em frente à porta eu escolhi dar adeus, desisti de amar…O medo, o medo de morrer de amor me paralisou. Eu estava entregue a descrença de amar…quietinha como quem entende a gravidade do amor, até de abrir mão de lutar pelo sol que todos os dias aquece e torna clara as manhãs… eu escolhi partir.
Não precisei me matar, nem morrer de amor…só precisei deixar de sonhar.

Foi neste lugar que encontrei Deus…neste lugar eu abri mão do meu ego, do controle…entendi que até aqui eu havia sido como um campônio insensato que abre a cova pra ver germinar antes mesmo da semente se fortalecer. Através de Deus, do Sagrado e da minha fé eu entendi a gravidade do amor. Neste lugar da Alma tão só e tão calmo, eu abracei a Dor. Agradeci cada sofrimento que as imagens do amor construíram em mim. Foi neste lugar vazio e pleno que eu parei de querer morrer de amor.

E ali… calmo, suave e real…
Conheci o amor dado por Deus…
O amor tão bem interpretado no capítulo do Divórcio que diz assim: “O que Deus uniu o homem não separa”.
Ao som de Casting Crows, da música Love them Like Jesus eu me casei pela segunda vez.
Eu era a menina no quarto azul com um filho nos braços e o coração ferido. E ele soube me amar como Jesus me amaria.
Um amor que não precisa de tatoos ou um por do sol inesquecível. Era real…Ele sempre estava lá, ao meu alcance e sem medo algum da morte.
Desta vez eu esperei florecer…
O amor é algo que simplesmente está lá. Quando real ele resiste ao tempo e as tempestades que a rotina põe à prova com tanta aspereza.
Conheci este lugar com meu segundo marido e também o pai dos meus filhos.
Foi com a chegada das crianças…parte minha, parte dele…partes nossas infinitas, que constroem o amor eterno… o amor de sempre olhar e ver ali o pai dos meus filhos…Ali o amor é maior do que quem ama…o amor não é mais intransponível porque ele gerou vida, floresceu. Dois em uma só carne. Entendi ao que vim…e adoro esta “vidinha rasa” e “cor de rosa” como muitos veem a maternidade, a rotina conjugal… descobri impardes de sentar ao sofá com pipoca, minha família, meu companheiro. Em outubro fazemos uma década de caminhada e pra mim… tem sido uma grande jornada sustentar o amor a dois.

Não sei se meu casamento é eterno ou se quer duradouro. Prefiro pensar que estaremos juntos enquanto for leve e bom pra ambos…mas, eu posso arriscar afirmar, que foi com o pai dos meus filhos que o medo de “morrer de amor” perdeu forças.
Foi ele e seu silêncioso modo de amar, de me deixar fazer meus longos monólogos sempre com um sorriso de covinhas, foi com este amor sereno, que cada parte minha encontrou aos poucos o caminho de volta.

Me refiro a cada parte perdida com a sensação de ser traída, abandonada. E conhecer então meu lado sombrio também e capaz de ferir tanto…de cada parte minha que a dor de amor levou.
A mulher que hoje escreve, fala no canal, nos LIVES,  já quis muito “morrer de amor”.

E se assim como eu, vocês creem que o único caminho já foi o suicídio “morrendo de amor”, com medo deste lugar que a torne a mulher que sente faltar o ar, e não vê outra solução para findar este estado momentâneo de loucura, de uma profunda falta de resposta. Hoje já superando um tanto mais esta dor, eu te digo: seja aliada da vida…e respire!
Depois respire um tanto mais…
Sinto uma profunda empatia a dor de amor…Aprendo dia a dia, apenas confiando que para morrer de amor é preciso estar vivo…Parece confusa esta afirmação eu sei… mas existem muitas mortes no campo do invisível…e para isso basta se abrir para a prática da fé, da confiança em Deus.

Eu morri ao ser traída? Sim! A parte de mim crente no amor genuíno morreu. Foi duro para os meus 15 anos.

Eu morri de amor ao ser abandonada? Sim! A parte de mim que esperou com vestes brancas o noivo que nunca chegou talvez nunca supere.

Eu morri de amor após meu divórcio? Sim! A parte de mim que confiava que casamento era algo sagrado não só para mim, mas para todos morreu também.

Eu morri de amor após um céu sem o Sol? Sim! A parte minha que vagou na escuridão e não lutou pelo amor, pela luz e que ainda acorda num céu cinza.

Eu morri de amor após ter filhos? Sim! A parte minha que conheceu o amor dos cúmplices que dividem pra uma vida toda esta parte ambulante e misturada junto ao outro pra sempre, estagnado, sem saída ou um possível ponto final. E este estado de morte permanente assusta. Com os filhos eu conheci o pra sempre! Pra sempre o pai dos meus filhos. Pra sempre o cúmplice da minha melhor parte. É uma dualidade de amor e morte.

E eu faria TUDO de novo.

Com amor me escancaro aos que morrem de amor assim como eu.
Ana Ariel.

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